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A Borracha no Brasil
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Batalha da
borracha
A operação montada por Getúlio Vargas para garantir aos
EUA a matéria-prima estratégica na Segunda Guerra Mundial levou à morte 30
mil nordestinos, heróis que foram esquecidos na floresta amazônica ARIADNE ARAÚJO – FORTALEZA REPRODUÇÕES: MUSEU DO MAUC
Foto: ROSEANE PEREZ
Os nordestinos arregimentados não tinham a menor idéia do
que era o trabalho nos seringais. Adoeciam e morriam com facilidade.
Demoravam a se acostumar à solidão e à lei da mata. O alfaiate João
Rodrigues Amaro, 72 anos, se arrependeu antes de chegar. Mas já era tarde
demais. Aos 17 anos ele deixou Sobral só com a passagem de ida. A Campanha
da Borracha uniu o útil ao útil. Em um ano de seca, encontrou no Nordeste um
exército de flagelados pronto para partir, ou melhor, fugir. Nos postos de
arregimentação, um exame físico e uma ficha selavam o compromisso. Para
abrigar tanta gente – às vezes mil em um único dia –, o jeito foi construir
alojamentos, como a hospedaria modelo, de nome Getúlio Vargas, em Fortaleza.
Lá, eles passavam a viver até o dia da viagem, sob um forte regime militar. Foto: REPRODUÇÕES: MUSEU DO MAUC
Fama e fortuna a propaganda dirigida e veiculada nos
meios de comunicação trazia promessas mirabolantes e era chamariz para os
desavisados. No discurso, os voluntários para a extração da seringa eram tão
importantes quantos os aviadores e marinheiros que lutavam no litoral contra
a pirataria submarina ou ainda os soldados das Nações Unidas. Nas esquinas
do País, retratos de seringueiros tirando ouro branco das árvores com um
simples corte. "Tudo pela Vitória", "Terra da Fortuna", eram as palavras de
ordem. Mas foi Getúlio Vargas, em discursos pelo rádio, que convenceu
mais."Brasileiros! A solidariedade de vossos sentimentos me dá a certeza
prévia da vitória.’’ Para garantir a adesão, se prometia um prêmio para o
seringueiro campeão. O maior fabricante de borracha em um ano levaria 35 mil
cruzeiros. Os voluntários ganhavam um enxoval improvisado – uma calça de
mescla azul, uma blusa de morim branco, um chapéu de palha, um par de
alparcatas de rabicho, uma caneca de flandre, um prato fundo, um talher, uma
rede, uma carteira de cigarros Colomy e um saco de estopa no lugar da mala.
O cearense Pedro Coelho Diniz, 72 anos, acreditou que ia ficar rico na
Amazônia. Levou um chapéu de couro e a medalha de São Francisco das Chagas,
mas não adiantou a fé nem a coragem de vaqueiro. O dinheiro que conseguiu
deu só para voltar ao Ceará uma única vez, para rever a família. Iam em carrocerias de caminhões, em vagões de trem de
carga, na terceira classe de um navio até o Amazonas. A viagem do exército
da borracha podia demorar mais de três meses, incluindo aí paradas à espera
de transporte. Pior que o desconforto, só o perigo de ir a pique no meio do
mar. Afinal, aqueles eram dias possíveis de ataque de submarino alemão. Para
prevenir, além da companhia de caça-minas e aviões torpeadores, os
nordestinos recebiam colete salva-vidas. Em caso de naufrágio, havia nos
bolsos internos uma pequena provisão de bolachas e água. Em caso de captura,
uma pílula de cianureto para escapar da vergonha de uma prisão inimiga. Foto: ROSEANE PEREZ
O exército cativo era enviado para os seringais para
extrair o máximo que pudesse de borracha. Só no ano de 1945, os arigós
aumentaram o estoque de borracha natural dos aliados de 93.650 para 118.715
toneladas. Castigo para desertor era a morte. Alegria só nos fins de semana,
nas festas de barracões, quando, na falta de mulher, dançava homem com
homem. Lembrança para se resolver nas festas de 1° de maio. Afinal, hoje são
muitas as viúvas, irmãs e filhas do exército enganado. Maria Rosa Lajes, 71
anos, chora de revolta. Ela luta pela aposentadoria de uma prima que veio
com o marido numa leva de 600 pessoas do Ceará. No Acre, pelo menos 11 mil
seringueiros já conseguiram o direito a dois salários mínimos, mas a falta
de documentação e os anos de espera quebraram a esperança dos que
sobreviveram à Batalha da Borracha. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi criada para
apurar a situação dos trabalhadores enviados à Amazônia no período de 1942 a
1945. A CPI da Borracha foi dissolvida sem conclusão. O que a CPI não disse
em seu relatório é que, com o fim da guerra e a fabricação da borracha
sintética, a extração desvairada de látex era dispensável e os aliados não
precisavam mais do Brasil, muito menos dos arigós. No Vale da Amazônia,
ainda hoje há denúncias de que integrantes da nova geração de seringueiros
vivem como escravos, uma herança do modelo da década de 40. Às margens do
rio Paraná do Ouro, em Feijó, a 366 quilômetros de Rio Branco, mais de 300
famílias não têm roupa para vestir, utensílios para fazer fogo e são
proibidos de vender a produção da borracha para outros comerciantes. A
comunidade é uma das muitas que ficaram perdidas na mata quando a guerra
acabou. São um pedaço do exército recrutado por Getúlio Vargas, esperando um
resgate que não veio nunca. Às margens do rio Juruá, no Acre, um seringal
ainda tem o nome de Fortaleza. Outras dezenas de vilarejos têm os nomes de
localidades no Nordeste. Uma maneira de os soldados da borracha se sentirem
em casa. José Pereira da Silva, 64 anos, pode dizer, por exemplo,
que mora em Fortaleza, a capital onde nasceu o pai dele. Hoje ele não corta
mais seringa nem conseguiu a aposentadoria como soldado da borracha. Mas os
vestígios da vida de soldado estão em toda parte. Em um dos quartos da
palafita em que mora, às margens do rio, ele guarda as peles de onça-pintada
que matou com sua espingarda nas madrugadas de retirada de látex. "Foram
mais de 20. Nunca tive medo delas. A carne eu trazia para a mulher fazer a
comida pros meninos." Até hoje ninguém sabe quantas pessoas e quantos são os
seringais do Vale da Amazônia. A Universidade Federal do Acre (Ufac) só
conseguiu mapear uma colocação (sítio dentro dos seringais). É a reserva de
extrativismo Chico Mendes. |