TEATRO AMAZONAS

       Idealizado para ser uma jóia da belle époque encravada no coração da selva amazônica e colocar Manaus no patamar dos grandes centros da civilização ocidental, o Teatro Amazonas desponta, hoje, depois de quatro restaurações, como um dos mais belos monumentos artísticos da humanidade. Ele reflete o fastígio do ciclo áureo da borracha na Amazônia e a determinação do espírito do povo amazonense. Seu estilo eclético reúne quatro fachadas distintas (greco-romana), tendo como destaque uma cúpula a la turca de 36 mil escamas em cerâmica esmaltada, com as cores da bandeira brasileira; possui estátuas de ferro francesas, pinturas italianas neoclássicas, mármores de Carrara, cristais de Murano e da Boêmia, dourados barroco, estuques rococós, cadeiras de couro russo, jarros japoneses, pinho de Riga e madeiras regionais, cosmopolitismo reinante em Manaus, quando capital mundial da borracha.

          Imaginem Manaus no século passado. Posto avançado da civilização ocidental encravado no meio da selva, próspera, que pertencia a um país que se tornara independente há pouco mais de cinqüenta anos e já possuía um acervo artístico e cultural de inegável valor.
          Na Manaus do século passado, a moeda corrente era a libra esterlina. A elite local não só adquiria as luxuosas peças de seu guarda-roupa nas principais metrópoles do mundo, como também mandava lavá-las e engomá-las em Lisboa. A língua francesa era a mais ouvida nas conversas de salão.
          As facilidades da opulência proporcionada pelo auge do ciclo da borracha eram suficientes para financiar a realização de grandes empreendimentos e melhoramentos na cidade, além de permitir apreciar as atrações que na véspera tinham encantado as platéias do Velho Mundo.A ligação estreita de Manaus com o mundo era feita em regime de mão dupla, por força da expansão industrial na Europa e Estados Unidos, onde a demanda da borracha produzida exclusivamente na Amazônia crescia sem parar.Os navios partiam abarrotados de nossa herbea brasiliensis e retornavam carregados dos mais requintados produtos finais de todas as partes.

          Na cidade, onde circulavam jornais impressos em inglês, francês, alemão e até em árabe, havia à disposição linhas regulares de navegação com destino aos principais portos do exterior, perfil cosmopolita que prevaleceu no momento em que se cogitou dotar Manaus de um teatro à altura das sofisticadas aspirações culturais do público da época. Este público seleto e traquejado nos grandes centros produtores de cultura no país e no exterior, exigia um local adequado, com acomodações e recursos técnicos para abrigar artistas e companhias que regularmente transpunham o Atlântico para levar à longínqua Manaus os maiores sucessos dos palcos europeus.

          Habituado a uma vida cultural requintada, com gosto pela literatura dramática e música lírica, o manauara não podia se conformar em apreciar encenações teatrais – peças, óperas, operetas e até vaudeville – senão no espaço apropriado e grandioso que viria a se concretizar com a inauguração do Teatro Amazonas em 1896.A construção do Teatro Amazonas foi proposta em 1881 pelo deputado provincial Antônio José Fernandes Júnior, com orçamento de 60 contos de réis, considerado irrisório à obra idealizada pelos amazonenses.
          A idéia era construir uma jóia da belle époque encravada no coração da floresta amazônica, ambicionada para unir requinte, solidez e longevidade, que nivelaria Manaus aos grandes centros da civilização ocidental. No ano seguinte a Assembléia Legislativa aprova emenda que eleva esse valor para 120 contos, também considerado insuficiente. Ainda em 1882, o presidente da Província, José Lustosa Paranaguá, sanciona lei estipulando o orçamento em 250 contos de réis e abre concorrência para a apresentação de plantas. Mas a escolha do projeto com o qual a obra seria iniciada só aconteceu em 1884, ano do lançamento da pedra fundamental do Teatro Amazonas.

          Entre o projeto do arquiteto italiano Celeste Sacardim (orçado em 250 contos) e o de autoria do Gabinete de Engenharia de Lisboa (no valor de 500 contos), prevaleceu o último, que possuía no currículo o projeto de construção do Teatro Nacional de Dona Maria II, na capital portuguesa. O Teatro Amazonas não poderia deixar de ter, além do fausto e do fulgor de sua decoração, uma coerência condizente à modernidade do teatro lírico da época.Deveria comportar a complexidade cenográfica de enormes e mutáveis cenários, grande número de figurantes, orquestra e iluminação reostato. Tal como na casa de Lisboa, ele foi concebido para se tornar referência obrigatória na história da arquitetura ou da arte dramática.

          A construção – O fato de utilizar mão-de-obra, artefatos e peças de decoração e ornamentação provenientes do exterior fez com que a sofreguidão de dar a Manaus um palco requintado tivesse que se dobrar aos imperativos da distância. A lentidão da obra se impôs forçosamente. Da Alsácia vieram telhas vidradas; de Paris, grades de ferro para camarotes, frisas e balcões, a armação da cúpula e os móveis estilo Luís XV; da Itália, mármores, escadas, pórticos, estátuas, colunas, lustres e espelhos de cristal, vasos de porcelana e candelabros.O vigamento de aço das paredes foi encomendado na Inglaterra, em Glasgow. As ferragens – escadas, gradis, bancos, estatuetas, colunas, mesas e cadeiras – vieram da famosa casa parisiense Koch Fréres.
          Embargos parlamentares e cobranças indevidas de indenizações também retardaram a conclusão da obra, conseguindo sustar a construção de 1885 a 1892, que só foi retomada no início do governo de Eduardo Ribeiro, presidente provincial amazonense afinado com o meio cultural e disposto a inaugurá-la antes de passar o cargo a seu sucessor. Sua administração coincide com a fase de expansão das exportações de borracha, conjuntura ainda mais favorável à realização do projeto.

          Embora a obra mal tivesse recomeçado em 1893, contratava-se por antecipação material e mão-de-obra que só seriam empregados após a conclusão da alvenaria, uma espécie de reserva técnica que tinha o valor de evidenciar a disposição do governante de logo concluir o teatro. O ritmo acelerado se estende aos dois anos seguintes, particularmente em 1895, quando terminam as obras de alvenaria e de cobertura e a decoração externa está prestes a começar. A rapidez também impregna os trabalhos de decoração do interior, bem como o acabamento da obra e itens de iluminação elétrica e encanamento.

          A inauguração – A data de inauguração do teatro que a impetuosidade de Eduardo Ribeiro marcara para 1894 seria protelada por duas vezes para o final de 1896, ano em que já não estaria no governo. Seu sucessor e afilhado político, Fileto Pires Ferreira, é quem iria inaugurar o teatro no dia 31 de dezembro de 1896. Foi mais um ato protocolar, porque a propalada inauguração só ocorreu a 7 de janeiro de 1897, com a estréia da famosa Companhia Lírica Italiana, que encenou, em avant première, “La Gioconda”, de Ponchielle.
          Passada a primeira noite de glória do monumento artístico da cidade, uma realidade se impunha à conclusão de fato da obra. O brilho da estréia não ofuscara o muito que ainda havia por fazer para que a casa fosse entregue em condições ao público. Obras externas e internas, não só a decoração, mal tinham começado, e a tarefa de concluí-las ainda ocuparia por mais de um ano a brigada multinacional – mais de duzentos operários e técnicos – arregimentada e custeada pelo poder público. Naquele começo de 1897, a obra já consumira quatro anos de atividades ininterruptas (1892-1896) e 11 de tramitação burocrática. Mais dois anos (1897-1898) ainda seriam decorridos para o término definitivo. Um total de 17 anos para que Manaus pudesse usufruir e ostentar com plenitude o teatro imaginado no longínquo projeto de 1891, que teve seu custo final no valor de 20 mil contos de réis.